PESSOAS

quinta-feira, junho 19, 2014

Limbo

escrevi um belo poema, dei "ctrl+c" para colar aqui e fechei o editor de texto,
enquanto isso entrei no blog de um amigo e dei "ctrl+c" no endereço do blog dele
para indicar para a namorada,
agora o "belo poema" vaga em algum lugar, no limbo.

terça-feira, junho 10, 2014

Não, eu não gosto!



Eu não gosto de padre
Eu não gosto de madre
Eu não gosto de frei.
Eu não gosto de bispo
Eu não gosto de Cristo
Eu não digo amém.
Eu não monto presépio
Eu não gosto do vigário
Nem da missa das seis.
Eu não gosto do terço
Eu não gosto do berço
De Jesus de Belém.
Eu não gosto do papa
Eu não creio na graça
Do milagre de Deus.
Eu não gosto da igreja
Eu não entro na igreja
Não tenho religião.

sábado, maio 24, 2014

Grande Sertão



Entre as leituras para concurso público e de textos acadêmicos fui lendo "Grande Sertão: Veredas" de João Guimarães Rosa. Acabei o livro com uma sensação estranha, como se sem a leitura, sem ouvir Riobaldo, o Tatarana, o Urutu-Branco, o mundo ficou mais vazio. Ao mesmo tempo bate um arrependimento de não ter lido esse livro quando era mais novo, quando a linguagem do livro estava mais presente no meu cotidiano através do contado com meus avós, tias e tios (mineiros e cearenses). Por falar em linguagem, ouvi de outras pessoas que já tinham lido a obra da dificuldade de "entrar" na leitura por causa da linguagem utilizada. Com algumas exceções não tive problemas, além de recordar muitas expressões usadas pelos parentes na infância. A obra é como uma tatuagem, marca permanentemente. Fui dormir pensando na história, sonhei com ela. Não esquecerei que "viver é negócio muito perigoso..."


sábado, março 29, 2014

Foda-se o mundo



Olho no olho. Instante que este misterioso mundo mostra sua imensidão e minha incapacidade de apreendê-lo. O sangue agita, o corpo lateja. Bunda, pernas, seios, não trazem esse mistério e toda a sua magia. Pelo contrário, é pelo olhar que vislumbro muitas probabilidades, inclusive, bunda, pernas, seios. É pelo seu olhar que ouço um “sim” aos meus desejos ainda irrefletidos. Meu hálito quente próximo ao seu ouvido. Palavras sacanas. O tempo para. O infinito é sussurrado em um sopro morno de gente. Em resposta há o seu sorriso malicioso, seus lábios que articulam um “tarado!”.  Uma palavra, uma chave que abre tantas portas quantos os poros dos nossos corpos soados a se descobrir. O mundo acaba. Poderia acabar... Foda-se o mundo!

sábado, março 15, 2014

Abandono


Cheirava e tinha o gosto de café. O hálito e sua língua esponjosa saciavam minha necessidade de gente. Tinha o corpo delgado de mulher com duas décadas frescas. Dizia-se tímida, mas quando fechava a porta e vinha em minha direção, mudava. Não amava, não pedia amor. Era carne, sangue, boca, respiração ofegante e desejos. Eu observava calado... Ouvia suas histórias. Acho que ela só queria ser ouvida, não amada. Acho que o sexo era o caminho da atenção que eu não deixava de dar. Era a mais prazerosa das desculpas. Dois corpos esculpidos na culpa de antes não terem se encontrado, se comido, se engalfinhado... Um dizer e um ouvido.  Foi-se um ano. O dizer calou. Continuei ouvindo um eco saudade.

sábado, fevereiro 01, 2014

O sofrer meu é o alheio

Sabe quando me sinto impotente diante de uma situação? Não é quando um grande problema surge e tenho que fazer uma escolha contraditória; não é quando a morte vem e busca um parente... Sinto-me impotente quando vejo quem eu gosto sofrer e sei que apesar de todas as minhas palavras, todos os meus atos e afagos não evitarão que a pessoa continue a se angustiar. Como seria bom evitar o sofrimento de quem se quer bem, ou ao menos realmente dividir a dor!

terça-feira, novembro 12, 2013

Artigo de William Douglas sobre as cotas para negros

Roberto Lyra, Promotor de Justiça, um dos autores do Código Penal de 1940, ao lado de Alcântara Machado e Nelson Hungria, recomendava aos colegas de Ministério Público que “antes de se pedir a prisão de alguém deveria se passar um dia na cadeia”. Gênio, visionário e à frente de seu tempo, Lyra informava que apenas a experiência viva permite compreender bem uma situação.
Quem procurar meus artigos, verá que no início era contra as cotas para negros, defendendo – com boas razões, eu creio – que seria mais razoável e menos complicado reservá-las apenas para os oriundos de escolas públicas. Escrevo hoje para dizer que não penso mais assim. As cotas para negros também devem existir. E digo mais: a urgência de sua consolidação e aperfeiçoamento é extraordinária.
Embora juiz federal, não me valerei de argumentos jurídicos. A Constituição da República é pródiga em planos de igualdade, de correção de injustiças, de construção de uma sociedade mais justa. Quem quiser, nela encontrará todos os fundamentos que precisa. A Constituição de 1988 pode ser usada como se queira, mas me parece evidente que a sua intenção é, de fato, tornar esse país melhor e mais decente. Desde sempre as leis reservaram privilégios para os abastados, não sendo de se exasperarem as classes dominantes se, umas poucas vezes ao menos, sesmarias, capitanias hereditárias, cartórios e financiamentos se dirigirem aos mais necessitados.
Não me valerei de argumentos técnicos nem jurídicos dado que ambos os lados os têm em boa monta, e o valor pessoal e a competência dos contendores desse assunto comprovam que há gente de bem, capaz, bem intencionada, honesta e com bons fundamentos dos dois lados da cerca: os que querem as cotas para negros, e os que a rejeitam, todos com bons argumentos.
Por isso, em texto simples, quero deixar clara minha posição como homem, cristão, cidadão, juiz, professor, “guru dos concursos” e qualquer outro adjetivo a que me proponha: as cotas para negros devem ser mantidas e aperfeiçoadas. E meu melhor argumento para isso é o aquele que me convenceu a trocar de lado: “passar um dia na cadeia”. Professor de técnicas de estudo, há nove anos venho fazendo palestras gratuitas sobre como passar no vestibular para a EDUCAFRO, pré-vestibular para negros e carentes.
Mesmo sendo, por ideologia, contra um pré-vestibular “para negros”, aceitei convite para aulas como voluntário naquela ONG por entender que isso seria uma contribuição que poderia ajudar, ou seja, aulas, doação de livros, incentivo. Sempre foi complicado chegar lá e dizer minha antiga opinião contra cotas para negros, mas fazia minha parte com as aulas e livros. E nessa convivência fui descobrindo que se ser pobre é um problema, ser pobre e negro é um problema maior ainda.
Meu pai foi lavrador até seus 19 anos, minha mãe operária de “chão de fábrica”, fui pobre quando menino, remediado quando adolescente. Nada foi fácil, e não cheguei a juiz federal, a 350.000 livros vendidos e a fazer palestras para mais de 750.000 pessoas por um caminho curto, nem fácil. Sei o que é não ter dinheiro, nem portas, nem espaço. Mas tive heróis que me abriram a picada nesse matagal onde passei. E conheço outros heróis, negros, que chegaram longe, como Benedito Gonçalves, Ministro do STJ, Angelina Siqueira, juíza federal. Conheço vários heróis, negros, do Supremo à portaria de meu prédio.
Apenas não acho que temos que exigir heroísmo de cada menino pobre e negro desse país. Minha filha, loura e de olhos claros, estuda há três anos num colégio onde não há um aluno negro sequer, onde há brinquedos, professores bem remunerados, aulas de tudo; sua similar negra, filha de minha empregada, e com a mesma idade, entrou na escola esse ano, escola sem professores, sem carteiras, com banheiro quebrado. Minha filha tem psicóloga para ajudar a lidar com a separação dos pais, foi à Disney, tem aulas de Ballet. A outra, nada, tem um quintal de barro, viagens mais curtas. A filha da empregada, que ajudo quanto posso, visitou minha casa e saiu com o sonho de ter seu próprio quarto, coisa que lhe passou na cabeça quando viu o quarto de minha filha, lindo, decorado, com armário inundado de roupas de princesa. Toda menina é uma princesa, mas há poucas das princesas negras com vestidos compatíveis, e armários, e escolas compatíveis, nesse país imenso. A princesa negra disse para sua mãe que iria orar para Deus pedindo um quarto só para ela, e eu me incomodei por lembrar que Deus ainda insiste em que usemos nossas mãos humanas para fazer Sua Justiça. Sei que Deus espera que eu, seu filho, ajude nesse assunto. E se não cresse em Deus como creio, saberia que com ou sem um ser divino nessa história, esse assunto não está bem resolvido. O assunto demanda de todos nós uma posição consistente, uma que não se prenda apenas à teorias e comece a resolver logo os fatos do cotidiano: faltam quartos e escolas boas para as princesas negras, e também para os príncipes dessa cor de pele.
Não que tenha nada contra o bem estar da minha menina: os avós e os pais dela deram (e dão) muito duro para ela ter isso. Apenas não acho justo nem honesto que lá na frente, daqui a uma década de desigualdade, ambas sejam exigidas da mesma forma. Eu direi para minha filha que a sua similar mais pobre deve ter alguma contrapartida para entrar na faculdade. Não seria igualdade nem honesto tratar as duas da mesma forma só ao completarem quinze anos, mas sim uma desmesurada e cruel maldade, para não escolher palavras mais adequadas.
Não se diga que possamos deixar isso para ser resolvido só no ensino fundamental e médio. É quase como não fazer nada e dizer que tudo se resolverá um dia, aos poucos. Já estamos com duzentos anos de espera por dias mais igualitários. Os pobres sempre foram tratados à margem. O caso é urgente: vamos enfrentar o problema no ensino fundamental, médio, cotas, universidade, distribuição de renda, tributação mais justa e assim por diante. Não podemos adiar nada, nem aguardar nem um pouco.
Foi vendo meninos e meninas negros, e negros e pobres, tentando uma chance, sofrendo, brilhando nos olhos uma esperança incômoda diante de tantas agruras, que fui mudando minha opinião. Não foram argumentos jurídicos, embora eu os conheça, foi passar não um, mas vários “dias na cadeia”. Na cadeia deles, os pobres, lugar de onde vieram meus pais, de um lugar que experimentei um pouco só quando mais moço. De onde eles vêm, as cotas fazem todo sentido.
Se alguém discorda das cotas, me perdoe, mas não devem faze-lo olhando os livros e teses, ou seus temores. Livros, teses, doutrinas e leis servem a qualquer coisa, até ao nazismo. Temores apenas toldam a visão serena. Para quem é contra, com respeito, recomendo um dia “na cadeia”. Um dia de palestra para quatro mil pobres, brancos e negros, onde se vê a esperança tomar forma e precisar de ajuda. Convido todos que são contra as cotas a passar conosco, brancos e negros, uma tarde num cursinho pré-vestibular para quem não tem pão, passagem, escola, psicólogo, cursinho de inglês, ballet, nem coisa parecida, inclusive professores de todas as matérias no ensino médio.
Se você é contra as cotas para negros, eu o respeito. Aliás, também fui contra por muito tempo. Mas peço uma reflexão nessa semana: na escola, no bairro, no restaurante, nos lugares que freqüenta, repare quantos negros existem ao seu lado, em condições de igualdade (não vale porteiro, motorista, servente ou coisa parecida). Se há poucos negros ao seu redor, me perdoe, mas você precisa “passar um dia na cadeia” antes de firmar uma posição coerente não com as teorias (elas servem pra tudo), mas com a realidade desse país. Com nossa realidade urgente. Nada me convenceu, amigos, senão a realidade, senão os meninos e meninas querendo estudar ao invés de qualquer outra coisa, querendo vencer, querendo uma chance.
Ah, sim, “os negros vão atrapalhar a universidade, baixar seu nível”, conheço esse argumento e ele sempre me preocupou, confesso. Mas os cotistas já mostraram que sua média de notas é maior, e menor a média de faltas do que as de quem nunca precisou das cotas. Curiosamente, negros ricos e não cotistas faltam mais às aulas do que negros pobres que precisaram das cotas. A explicação é simples: apesar de tudo a menos por tanto tempo, e talvez por isso, eles se agarram com tanta fé e garra ao pouco que lhe dão, que suas notas são melhores do que a média de quem não teve tanta dificuldade para pavimentar seu chão. Somos todos humanos, e todos frágeis e toscos: apenas precisamos dar chance para todos.
Precisamos confirmar as cotas para negros e para os oriundos da escola pública. Temos que podemos considerar não apenas os deficientes físicos (o que todo mundo aceita), mas também os econômicos, e dar a eles uma oportunidade de igualdade, uma contrapartida para caminharem com seus co-irmãos de raça (humana) e seus concidadãos, de um país que se quer solidário, igualitário, plural e democrático. Não podemos ter tanta paciência para resolver a discriminação racial que existe na prática: vamos dar saltos ao invés de rastejar em direção a políticas afirmativas de uma nova realidade.
Se você não concorda, respeito, mas só se você passar um dia conosco “na cadeia”. Vendo e sentindo o que você verá e sentirá naquele meio, ou você sairá concordando conosco, ou ao menos sem tanta convicção contra o que estamos querendo: igualdade de oportunidades, ou ao menos uma chance. Não para minha filha, ou a sua, elas não precisarão ser heroínas e nós já conseguimos para elas uma estrada. Queremos um caminho para passar quem não está tendo chance alguma, ao menos chance honesta. Daqui a alguns poucos anos, se vierem as cotas, a realidade será outra. Uma melhor. E queremos você conosco nessa história.
Não creio que esse mundo seja seguro para minha filha, que tem tudo, se ele não for ao menos um pouco mais justo para com os filhos dos outros, que talvez não tenham tido minha sorte. Talvez seus filhos tenham tudo, mas tudo não basta se os filhos dos outros não tiverem alguma coisa. Seja como for, por ideal, egoísmo (de proteger o mundo onde vão morar nossos filhos), ou por passar alguns dias por ano “na cadeia” com meninos pobres, negros, amarelos, pardos, brancos, é que aposto meus olhos azuis dizendo que precisamos das cotas, agora.
E, claro, financiar os meninos pobres, negros, pardos, amarelos e brancos, para que estudem e pelo conhecimento mudem sua história, e a do nosso país comum pois, afinal de contas, moraremos todos naquilo que estamos construindo.
Então, como diria Roberto Lyra, em uma de suas falas, “O sol nascerá para todos. Todos dirão – nós – e não – eu. E amarão ao próximo por amor próprio. Cada um repetirá: possuo o que dei. Curvemo-nos ante a aurora da verdade dita pela beleza, da justiça expressa pelo amor.
Justiça expressa pelo amor e pela experiência, não pelas teses. As cotas são justas, honestas, solidárias, necessárias. E, mais que tudo, urgentes. Ou fique a favor, ou pelo menos visite a cadeia

Fonte: AQUI

sexta-feira, novembro 01, 2013

Meditar



Lembro-me do tempo no qual nas noites de domingo, antes de me deitar, eu ficava na sala sentado e meditando por algum tempo. Na rádio rolava as músicas de um programa chamado “adrenalina”. Nas meditações dominicais imaginava eu saindo da sala me elevando pelo telhado, subindo mais e mais, enxergando os telhados de todo o bairro, as luzes, a calmaria, e continuava a subir por entre as nuvens até o espaço vazio onde encontrava um grande muro suspenso com um portão ornamentado. Abria o portão e no seu interior existia um grande jardim com um caminho estreito preenchido por pequenas pedras no chão, um lago à esquerda e um banco de praça em madeira na cor branca à direita. Ali eu sentava e meditava.
Nessas noites, no programa de rádio quase sempre tocava esta música: 

sábado, outubro 12, 2013

Hoje é dia das crianças, e daí?




http://www.pragmatismopolitico.com.br/2011/10/hoje-e-dia-das-criancas-e-dai.html

Atahualpa Yupanqui - Milonga del Solitario




Me gusta de vez en cuando
perderme en un bordoneo,
porque bordoneando veo
que ni yo mismo me mando.
Las cuerdas van ordenando
los rumbos del pensamiento,
y en el trotecito lento
de una milonga campera
va saliendo campo afuera,
lo mejor del sentimiento.

Ninguno debe pensar
que vengo en son de revancha,
no es mi culpa si en la cancha
tengo con qué galopear.
El que me quiera ganar,
ha 'i tener buen parejero,
yo me quitaré el sombrero,
porque así me han enseña'o,
y me doy por bien paga'o
dentrando atrás del primero.

Siempre bajito he canta'o
porque gritando no me hallo
--grito al montar a caballo
si en la caña me he bandea'o
pero tratando un versea'o
a'nde se canten quebrantos,
apenas mi voz levanto
para cantar despacito,
que el que se larga a los gritos
no escucha su propio canto.

Si la muerte traicionera
me acogota a su palenque,
háganme con dos rebenques
la cruz pa' mi cabecera;
si muero en mi madriguera
mirando los horizontes,
no quiero cruces ni aprontes,
ni encargos para el Eterno,
tal vez pasando el invierno
me dé sus flores el monte.

Toda la noche he cantado
con el alma estremecida,
que el canto es la abierta herida
de un sentimiento sagrado,
a naides tengo a mi lado
porque no buscó piedad,
desprecio la caridad
por la vergüenza que encierra;
soy como el león de las sierras,
vivo y muero en soledad.

O discurso de Luiz Rufatto

 Um discurso essencial.

"O que significa ser escritor num país situado na periferia do mundo, um lugar onde o termo capitalismo selvagem definitivamente não é uma metáfora?
Para mim, escrever é compromisso. Não há como renunciar ao fato de habitar os limiares do século XXI, de escrever em português, de viver em um território chamado Brasil. Fala-se em globalização, mas as fronteiras caíram para as mercadorias, não para o trânsito das pessoas.
Proclamar nossa singularidade é uma forma de resistir à tentativa autoritária de aplainar as diferenças. O maior dilema do ser humano em todos os tempos tem sido exatamente esse, o de lidar com a dicotomia eu-outro. Porque, embora a afirmação de nossa subjetividade se verifique através do reconhecimento do outro – é a alteridade que nos confere o sentido de existir –, o outro é também aquele que pode nos aniquilar... E se a Humanidade se edifica neste movimento pendular entre agregação e dispersão, a história do Brasil vem sendo alicerçada quase que exclusivamente na negação explícita do outro, por meio da violência e da indiferença.
Nascemos sob a égide do genocídio. Dos quatro milhões de índios que existiam em 1500, restam hoje cerca de 900 mil, parte deles vivendo em condições miseráveis em assentamentos de beira de estrada ou até mesmo em favelas nas grandes cidades. Avoca-se sempre, como signo da tolerância nacional, a chamada democracia racial brasileira, mito corrente de que não teria havido dizimação, mas assimilação dos autóctones. Esse eufemismo, no entanto, serve apenas para acobertar um fato indiscutível: se nossa população é mestiça, deve-se ao cruzamento de homens europeus com mulheres indígenas ou africanas – ou seja, a assimilação se deu através do estupro das nativas e negras pelos colonizadores brancos.
Até meados do século XIX, cinco milhões de africanos negros foram aprisionados elevados à força para o Brasil. Quando, em 1888, foi abolida a escravatura, não houve qualquer esforço no sentido de possibilitar condições dignas aos ex-cativos. Assim, até hoje, 125 anos depois, a grande maioria dos afrodescendentes continua confinada à base da pirâmide social: raramente são vistos entre médicos, dentistas, advogados, engenheiros, executivos, jornalistas, artistas plásticos, cineastas, escritores.
Invisível, acuada por baixos salários e destituída das prerrogativas primárias da cidadania – moradia, transporte, lazer, educação e saúde de qualidade –, a maior parte dos brasileiros sempre foi peça descartável na engrenagem que movimenta a economia: 75% de toda a riqueza encontra-se nas mãos de 10% da população branca e apenas 46 mil pessoas possuem metade das terras do país. Historicamente habituados a termos apenas deveres, nunca direitos, sucumbimos numa estranha sensação de não-pertencimento: no Brasil, o que é de todos não é de ninguém...
Convivendo com uma terrível sensação de impunidade, já que a cadeia só funciona para quem não tem dinheiro para pagar bons advogados, a intolerância emerge. Aquele que, no desamparo de uma vida à margem, não tem o estatuto de ser humano reconhecido pela sociedade, reage com relação ao outro recusando-lhe também esse estatuto. Como não enxergamos o outro, o outro não nos vê. E assim acumulamos nossos ódios – o semelhante torna-se o inimigo.
A taxa de homicídios no Brasil chega a 20 assassinatos por grupo de 100 mil habitantes, o que equivale a 37 mil pessoas mortas por ano, número três vezes maior que a média mundial. E quem mais está exposto à violência não são os ricos que se enclausuram atrás dos muros altos de condomínios fechados, protegidos por cercas elétricas, segurança privada e vigilância eletrônica, mas os pobres confinados em favelas e bairros de periferia, à mercê de narcotraficantes e policiais corruptos.
Machistas, ocupamos o vergonhoso sétimo lugar entre os países com maior número de vítimas de violência doméstica, com um saldo, na última década, de 45 mil mulheres assassinadas. Covardes, em 2012 acumulamos mais de 120 mil denúncias de maus-tratos contra crianças e adolescentes. E é sabido que, tanto em relação às mulheres quanto às crianças e adolescentes, esses números são sempre subestimados.
Hipócritas, os casos de intolerância em relação à orientação sexual revelam, exemplarmente, a nossa natureza. O local onde se realiza a mais importante parada gay do mundo, que chega a reunir mais de três milhões de participantes, a Avenida Paulista, em São Paulo, é o mesmo que concentra o maior número de ataques homofóbicos da cidade.
E aqui tocamos num ponto nevrálgico: não é coincidência que a população carcerária brasileira, cerca de 550 mil pessoas, seja formada primordialmente por jovens entre 18 e 34 anos, pobres, negros e com baixa instrução. O sistema de ensino vem sendo ao longo da história um dos mecanismos mais eficazes de manutenção do abismo entre ricos e pobres. Ocupamos os últimos lugares no ranking que avalia o desempenho escolar no mundo: cerca de 9% da população permanece analfabeta e 20% são classificados como analfabetos funcionais – ou seja, um em cada três brasileiros adultos não tem capacidade de ler e interpretar os textos mais simples.
A perpetuação da ignorância como instrumento de dominação, marca registrada da elite que permaneceu no poder até muito recentemente, pode ser mensurada. O mercado editorial brasileiro movimenta anualmente em torno de 2,2 bilhões de dólares, sendo que 35% deste total representam compras pelo governo federal, destinadas a alimentar bibliotecas públicas e escolares. No entanto, continuamos lendo pouco, em média menos de quatro títulos por ano, e no país inteiro há somente uma livraria para cada 63 mil habitantes, ainda assim concentradas nas capitais e grandes cidades do interior.
Mas, temos avançado.
A maior vitória da minha geração foi o restabelecimento da democracia – são 28 anos ininterruptos, pouco, é verdade, mas trata-se do período mais extenso de vigência do estado de direito em toda a história do Brasil. Com a estabilidade política e econômica, vimos acumulando conquistas sociais desde o fim da ditadura militar, sendo a mais significativa, sem dúvida alguma, a expressiva diminuição da miséria: um número impressionante de 42 milhões de pessoas ascenderam socialmente na última década.
Inegável, ainda, a importância da implementação de mecanismos de transferência de renda, como as bolsas-família, ou de inclusão, como as cotas raciais para ingresso nas universidades públicas.
Infelizmente, no entanto, apesar de todos os esforços, é imenso o peso do nosso legado de 500 anos de desmandos. Continuamos a ser um país onde moradia, educação, saúde, cultura e lazer não são direitos de todos, mas privilégios de alguns. Em que a faculdade de ir e vir, a qualquer tempo e a qualquer hora, não pode ser exercida, porque faltam condições de segurança pública. Em que mesmo a necessidade de trabalhar, em troca de um salário mínimo equivalente a cerca de 300 dólares mensais, esbarra em dificuldades elementares como a falta de transporte adequado. Em que o respeito ao meio-ambiente inexiste. Em que nos acostumamos todos a burlar as leis.
Nós somos um país paradoxal.
Ora o Brasil surge como uma região exótica, de praias paradisíacas, florestas edênicas, carnaval, capoeira e futebol; ora como um lugar execrável, de violência urbana, exploração da prostituição infantil, desrespeito aos direitos humanos e desdém pela natureza. Ora festejado como um dos países mais bem preparados para ocupar o lugar de protagonista no mundo – amplos recursos naturais, agricultura, pecuária e indústria diversificadas, enorme potencial de crescimento de produção e consumo; ora destinado a um eterno papel acessório, de fornecedor de matéria-prima e produtos fabricados com mão-de-obra barata, por falta de competência para gerir a própria riqueza.
Agora, somos a sétima economia do planeta. E permanecemos em terceiro lugar entre os mais desiguais entre todos...
Volto, então, à pergunta inicial: o que significa habitar essa região situada na periferia do mundo, escrever em português para leitores quase inexistentes, lutar, enfim, todos os dias, para construir, em meio a adversidades, um sentido para a vida?
Eu acredito, talvez até ingenuamente, no papel transformador da literatura. Filho de uma lavadeira analfabeta e um pipoqueiro semianalfabeto, eu mesmo pipoqueiro, caixeiro de botequim, balconista de armarinho, operário têxtil, torneiro-mecânico, gerente de lanchonete, tive meu destino modificado pelo contato, embora fortuito, com os livros. E se a leitura de um livro pode alterar o rumo da vida de uma pessoa, e sendo a sociedade feita de pessoas, então a literatura pode mudar a sociedade. Em nossos tempos, de exacerbado apego ao narcisismo e extremado culto ao individualismo, aquele que nos é estranho, e que por isso deveria nos despertar o fascínio pelo reconhecimento mútuo, mais que nunca tem sido visto como o que nos ameaça. Voltamos as costas ao outro – seja ele o imigrante, o pobre, o negro, o indígena, a mulher, o homossexual – como tentativa de nos preservar, esquecendo que assim implodimos a nossa própria condição de existir.
Sucumbimos à solidão e ao egoísmo e nos negamos a nós mesmos. Para me contrapor a isso escrevo: quero afetar o leitor, modificá-lo, para transformar o mundo. Trata-se de uma utopia, eu sei, mas me alimento de utopias. Porque penso que o destino último de todo ser humano deveria ser unicamente esse, o de alcançar a felicidade na Terra.
Aqui e agora."

Fonte: http://www.geledes.org.br/em-debate/colunistas/21422-machistas-hipocritas-intolerantes-o-discurso-sobre-o-brasil-de-luiz-rufatto-o-easter-egg-da-feira-de-frankfurt-por-kiko-nogueira

sexta-feira, agosto 23, 2013

Movimento Aline Copceski. Ajude! Divulgue!!

Quem puder ajudar, ajude! Divulgue!! As informações abaixo foram retiradas daqui: https://www.facebook.com/MovimentoAline



"Pessoal, infelizmente o que temíamos aconteceu, o Desembargador Federal, LUÍS ALBERTO D AZEVEDO AURVALLE, não reviu sua decisão e realmente proibiu a importação do BRENTUXIMAB VEDOTIN (ADCETRIS) que é o único tratamento disponível que poderia salvar a vida de Aline.
Estamos iniciando uma campanha para aporte financeiro, visando a compra do medicamento de forma independente, o que possibilitaria o tratamento e a conseqüente cura de Aline, se possível, contribua com qualquer valor, toda ajuda será bem vinda, por favor, efetue os depósitos nas seguintes contas:

Itaú:
Agencia 0246
Conta Corrente 072896
Titular Aline Gabriela Copceski

Banco do Brasil
Agencia 03816
Conta Corrente 39.273-1
Titular Aline Gabriela Copceski

Se necessário para transferência o CPF 052.646.199-30"


Se alguém quiser acompanhar o processo o site do TJPR é o seguinte: http://www.jfpr.gov.br/ e o número do processo é o 5001181-61.2013.404.7011

Obrigado a todos!!!!!"

HISTÓRICO:

"Histórico do Linfoma de Hodgkin – Aline Gabriela Copceski.

O primeiro sinal da doença que tive foi um inchaço no pescoço, em agosto de 2010. Acordei, e ao olhar para o espelho vi que meu pescoço estava inchado, achei muito estranho. Fui ao Pronto Atendimento Municipal logo em seguida, a médica que me atendeu disse ser uma tensão muscular e me passou alguns antiinflamatórios.
Com o passar dos meses, no pescoço apareceu uma pelotinha, e mais outra no local do inchaço, e eu estava com umas 4 pelotinhas no pescoço. No dia 26 de dezembro de 2010 aquelas pelotinhas estavam me incomodando muito e resolvi ir ao médico que cuida da nossa família, em Cafelândia. Ele me examinou e pediu para que eu fizesse uns exames de sangue, um ultrason e procurasse um oncologista, a suspeita era de Linfoma.
No dia 30 de dezembro eu fui fazer o ultrason, e o médico que o fez já me colocou em estado de alerta: “isso parece muito com câncer”, mas ele foi pelo caminho errado, achou que era algo na tireóide e fez uma punção, alguns dias depois saiu o resultado e não acusou nada, mas ele pediu para que eu procurasse um oncologista. Procurei o oncologista nos primeiros dias de janeiro de 2011, ele pediu para que eu retirasse um dos nódulos para uma biópsia. No dia 20 de janeiro fiz uma micro-cirurgia e o nódulo foi enviado para análise. Cerca de uma semana depois saiu o resultado e o Linfoma foi comprovado, então encaminharam o material para a imunoistoquímica, e no dia 15 de janeiro saiu o resultado definitivo: Linfoma de Hodgkin Clássico com Esclerose Nodular. Neste meio tempo eu já havia feito mais outros vários exames de sangue e uma tomografia.
No dia 25 de janeiro eu comecei a quimioterapia no Hospital Nossa Senhora Aparecida em Umuarama. O protocolo escolhido foi o ABVD, o mais comum para esses casos. Fiz 3 ciclos e meio (7 sessões) em Umuarama, mas o médico que atendia lá não tinha compromisso nenhum com os pacientes, faltava muito e isso causou uma irregularidade grande no tratamento, que deveria ser feito a cada 15 dias, sem falhas. Até que um dia o médico não apareceu mais no hospital sem dar explicações, e informaram que ele não voltaria mais.
Então transferi meu tratamento para o Hospital de Câncer de Maringá. Fiz vários exames de sangue e uma nova tomografia para fazer um reestadiameto da doença. No dia 13 de julho de 2011 recomecei o protocolo ABVD em Maringá. Fiz 3 ciclos (6 sessões), terminadas em setembro. Então a médica pediu uma nova tomografia para ver como a quimio havia agido. Infelizmente ainda havia vários nódulos, então ela resolveu entrar com a quimio de resgate. O protocolo escolhido foi o DHAP, 2 sessões que eu fiz internada porque durava 48 horas, um em novembro e outro em dezembro de 2011. Com essa quimioterapia eu tive efeitos colaterais terríveis e quase morri.
Passado um mês do fim da quimio a médica pediu novamente uma tomografia para ver como estava, e os nódulos não só persistiam, como haviam aumentado. Ela pediu um PET-CT para diagnosticar melhor, e depois do resultado pediu uma nova biópsia, dessa vez com nódulos retirados da axila, por pensar que talvez não fossem nódulos cancerígenos. Dia 27 de janeiro foi realizada a cirurgia, o material foi mandado primeiro para biópsia e logo em seguida para imunoistoquímica, ao que se confirmou que era realmente Linfoma.
Então eu fui encaminhada para a equipe de Transplante de Medula Óssea do Hospital de Clínicas de Curitiba para a retirada de células tronco para um futuro transplante, antes que a quimioterapia afetasse minha medula. Em abril de 2012 fui para minha primeira consulta em Curitiba no HC, ficou tudo certo que eu voltaria para Maringá fazer mais uma quimio para baixar minha imunidade para poder fazer o processo de coleta de células tronco. Em abril eu fiz essa quimio, mais um protocolo de DHAP, e no dia 4 de maio fui para Curitiba. Lá descobri que estava com insuficiência renal, com creatinina a 4,7. Então o médico começou a fazer um tratamento de hidratação intensa, eu passava o diz todo no hospital, tomava soro e diuréticos para baixar a creatinina, fazia exames de sangue diariamente para ver como estava a imunidade. Quando ela chegou ao mínimo começaram com as altas doses de Filgrastin. Tomei 5 injeções de Filgrastin por dia por 6 dias, coloquei um cateter de duas vias na jugular para fazer a aférese de coleta de células tronco. O processo durou duas tardes, cerca de 10 horas, e coletaram o número de células suficientes para eu fazer o transplante.
A recomendação então foi de voltar para Maringá e fazer mais um protocolo de quimioterapia para tentar eliminar ao máximo a doença. Em agosto e setembro fiz um protocolo chamado GIV. Eu tomava o medicamento por 5 dias e depois de alguns dias um reforço. E um mês depois repeti o processo.
Então foi pedido mais um PET-CT, e mais uma vez a doença não havia diminuído, mas sim aumentado.
Como meus rins ainda estavam muito prejudicados, os médicos do HC de Curitiba decidiram que eu não iria mais fazer quimio, iriam tentar a radioterapia. Entre novembro e dezembro de 2012 fiz 20 sessões de radioterapia de mantle.
Depois de 1 mês fiz um novo PET-CT e continuava com doença ativa, o médico pediu para refazer o PET-CT em 2 meses, porque a radioterapia age no organismo por cerca de 3 meses. Para minha surpresa a doença havia aumentado, surgiram nódulos onde eu nunca havia tido. Antes eles estavam localizados no mediastino, axila. Agora tenho nódulos na costela, no seio. Esses nódulos na costela me causam uma dor terrível, além de terem provocado um derrame pleural que me causa muita falta de ar e tosse incessante. Essa dor e o derrame só acabarão quando os nódulos reduzirem de tamanho.
Além de tudo isso, passei por períodos de imunidade muito baixa, tive que tomar muitas injeções de Filgrastin para aumentar a imunidade, tomar muitas bolsas de sangue por causa da anemia severa que adquiri. Fiquei internada diversas vezes por causa de infecções. Tive muitos, muitos transtornos com efeitos colaterais das quimioterapias, que não reduziram a doença e só me fizeram mal.
Foi constatado que eu não tenho resposta à quimioterapia e que uma alternativa certa para eliminar o Linfoma para que eu possa fazer o Transplante Autólogo seria o uso dos anticorpos monoclonais, que, infelizmente, não estão disponíveis no Brasil"


quarta-feira, agosto 21, 2013

Bunda quadrada

Acabei o mestrado e reiniciei os meus estudos para concursos públicos. Depois de quase 1 ano de estudos para área trabalhista bateu a preguiça. Como é difícil manter a regularidade das leituras. Estar atualizado. Com o tempo tenho a sensação que não consigo mais aprender nada "novo". Tenho a sensação que estou "queimando" informação.